No âmbito do empréstimo da pintura Sem título (1986) de Rosa Carvalho destaca-se esta obra pertencente à Coleção da Caixa Geral de Depósitos (CGD). A pintura integra a exposição Um Silabário por Reconstruir, com curadoria de José Maçãs de Carvalho e Joana Oliveira Borges, no Centro de Arte Contemporânea de Coimbra e Sala da Cidade, de 22 de fevereiro a 18 de maio de 2025.

Rosa Carvalho realizou o curso de Pintura na Escola de Belas-Artes da Universidade de Lisboa e desde muito cedo inseriu-se na geração de retorno à pintura, no início dos anos 80. Numa das fases do seu percurso, a pintora reproduziu com perícia e destreza as obras de pintores como David, Boucher, Goya, Rembrandt e Velasquez, mas retirando as figuras femininas presentes nas pinturas originais. Esta subtração, aliada ao academismo pictórico, parece indicar um desejo deliberado de anacronismo e “cria condições para que personagens fora das personagens originárias se disponham à correspondência entre os seus íntimos estados e uma narrada circunstância do lugar.” (João Miguel Fernandes Jorge). A ausência da figura feminina reforça a negação da presença da mulher como objeto de representação e como produtora de arte, entenda-se, como artista. A revisitação da pintura clássica serve como ponto de partida para discutir a representação do corpo feminino e o papel da mulher num mundo dominado pela masculinidade latente, “tratando-se de uma artista que desautoriza a modorra dos costumes” (João Sousa Cardoso).

A pintura Sem título (1986), pertencente à Coleção da CGD, repõe a figura feminina como modelo que oscila entre a imagem religiosa, mitológica, sublime, erótica ou onírica, sem nunca se fixar numa determinada representação. A realidade, quer seja através de paisagens ou naturezas-mortas, é sempre questionada pelas pinturas executadas: não porque a imagem não se revele verosímil, antes pelo contrário; mas porque parece carregar consigo as virtudes e as contradições da história. Através da pintura de pinturas clássicas e históricas, ou pelo menos através dessa parecença ou referência, a artista evoca “um mundo feito de memória, nostalgia talvez, melancolia certamente.” (Isabel Carlos). A figura feminina, talvez Ártemis, segura numa seta. Contudo, a delicadeza das suas mãos e do gesto com que o faz aproxima a deusa grega da caça ao anjo que atinge com uma seta a Santa Teresa. Porém, é na neblina que a pintura acontece. “Cego pelos nevoeiros que ocultam a solução desses espaços, o observador é sucessivamente desafiado a encontrá-la mas sabe desde sempre que nunca a achará, porque ela não existe.” (João Pinharanda).

Apesar do seu discreto percurso artístico, a sua obra não tem passado indiferente a importantes coleções privadas e públicas, das quais se destacam: Fundação EDP, Fundação Calouste Gulbenkian, Fundação GALP, Fundação PLMJ, Coleção Norlinda e José Lima, FLAD, entre outras. Recentemente a sua obra foi apresentada: na exposição coletiva Tudo o que eu quero – Artistas Portuguesas de 1900 a 2020 (2021-22), com curadoria de Helena de Freitas e Bruno Marchand, no Museu Calouste Gulbenkian em Lisboa e no Centre de Création Contemporaine Olivier Debré em Tours; e na exposição individual Às Escuras (2024) no Museu Arpad Szenes-Vieira da Silva, em Lisboa, com curadoria de Isabel Carlos.

Hugo Dinis

Rosa Carvalho
Sem título
1986
Óleo sobre tela
71,3 x 113 cm
Inv. 276103
Search Collection
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